Da
casa em que morava na Cidade Alta o poeta natalense Bosco Lopes, falecido em
1996, vislumbrava as águas bravias do Rio Potengi e inspirava-se para escrever
versos. O poema "Rio Grande" tocava a triste sina de um estado
marcado pela pobreza, má sorte e descaso. Semelhante é o destino do rio que
serviu para nomear a antiga Capitania do Rio Grande e que em séculos anteriores
foi realmente pujante como meio propulsor da economia local, servindo ao
transporte das mercadorias que entravam e saíam do território potiguar.
O "Rio Salgado", como era chamado há 200 anos, se
apresenta no século 21 desafortunado e cansado de esperar a providência
pública, o interesse privado e a vontade coletiva de vê-lo integrado ao cenário
urbano de uma cidade que deu as costas para um patrimônio natural repleto de
potencialidades econômicas e turísticas.
No passado, suas águas serviram ao pioneirismo da natação, à travessia de
balsas e lanchas de passageiros, aos passeios culturais, ações que foram
paulatinamente desativadas pelo descuido da sociedade natalense.
Hoje gestores públicos reconhecem o esquecimento e a ausência de projetos
urbanísticos que aproximem os potiguares das águas que poderiam gerar
desenvolvimento sócio econômico ao estado. Sofrido pelas agressões como a
ocorrida há exatos cinco anos quando toneladas de peixes foram encontrados
mortos numa das piores tragédias ambientais da história do estado.
Tratado com desprezo histórico, o rio continua correndo para o mar esperando
ser acolhido e melhor tratado pelo povo que o margeia.
Rio grande da morte
Rio grande sem sorte
Rio grande sem forte
Rio Grande do Norte
Rio pequeno do Norte
Rio finito do corte
Rio seco de sorte
Rio Grande do Norte
Rio sem cais sem porto
Rio você já foi morto
Rio de leito torto
Rio chorando de fome
Rio triste sem nome
Rio cansado que some
"Rio Grande" - (Bosco Lopes) DN
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